Os administradores do Salesforce configuram agentes autônomos no Agentforce estabelecendo domínios operacionais estruturados, ferramentas de negócios executáveis e controles de governança em múltiplas camadas dentro do Agentforce Builder. Diferente dos chatbots tradicionais baseados em regras que seguem árvores de decisão determinísticas, o Agentforce utiliza o Atlas Reasoning Engine para interpretar dinamicamente a intenção do usuário, formular planos de ação e executar tarefas de forma autônoma. Para garantir que esses agentes autônomos operem com confiabilidade, segurança e dentro dos limites corporativos, os administradores devem configurar três blocos de construção fundamentais: tópicos (topics) que classificam e delimitam o escopo do trabalho, ações (actions) que executam a lógica de negócios e proteções (guardrails) que impõem restrições comportamentais, privacidade de dados e caminhos de escalonamento para atendentes humanos.
Base arquitetônica: o Atlas Reasoning Engine
Para configurar um agente autônomo com eficácia, os administradores precisam entender como o Agentforce processa as interações do usuário. No centro do Agentforce está o Atlas Reasoning Engine, que coordena o comportamento do agente por meio de um ciclo contínuo de "raciocinar-agir-observar" (reason-act-observe):
- Classificação de intenção (Intent Classification): Quando um usuário final envia uma solicitação, o Atlas avalia a mensagem comparando-a com as descrições de classificação de todos os tópicos ativos atribuídos ao agente.
- Montagem do contexto (Context Assembly): Uma vez selecionado o tópico, o Atlas assimila as instruções em linguagem natural do tópico, as ações disponíveis, o histórico de conversas e os dados relevantes do cliente recuperados por meio do Salesforce CRM ou do Data Cloud.
- Formulação do plano (Plan Formulation): O mecanismo de raciocínio avalia quais ações (se houver) são necessárias para atender à solicitação do usuário e determina os parâmetros necessários a serem extraídos da conversa.
- Execução da ação e observação (Action Execution and Observation): O agente executa a ação escolhida — como consultar um registro de inventário ou atualizar o status de um caso — e observa o resultado retornado. Se forem necessárias etapas adicionais, o mecanismo continuará raciocinando até que o objetivo seja alcançado ou um limite de escalonamento seja acionado.
Como o Atlas raciocina dinamicamente em vez de seguir uma árvore de diálogo pré-roteirizada, os administradores não precisam construir caminhos de ramificação estáticos. Em vez disso, definem os limites, as ferramentas e os objetivos, permitindo que o mecanismo encontre o caminho ideal para a resolução.
Etapa 1: Configurando tópicos (Topics) no Agentforce Builder
Os tópicos servem como os domínios funcionais primários do agente. Eles agrupam recursos relacionados, fornecem contexto e definem os limites dentro dos quais o agente está autorizado a operar.
Acessando o Builder e criando tópicos
- No menu Configuração (Setup) do Salesforce, use a caixa de Busca rápida (Quick Find) para navegar até Agentforce Agents (ou Einstein Agents, dependendo da configuração da versão).
- Selecione o agente desejado na lista e clique em Open in Builder.
- No painel de navegação à esquerda do Agentforce Builder, selecione a guia Topics.
- Clique em New Topic para criar um tópico personalizado do zero ou escolha entre os modelos de domínio padrão pré-configurados (como Order Management, Billing Inquiries ou Case Escalation).
Definindo metadados do tópico e escopo de classificação
Cada tópico requer três campos de configuração críticos que influenciam diretamente como o Atlas Reasoning Engine roteia as solicitações recebidas:
- Nome do tópico (Topic Name): Um rótulo claro e descritivo que identifica a função de negócios (por exemplo,
Billing_and_InvoicesouAppointment_Scheduling). - Descrição de classificação (Classification Description): Uma explicação semântica detalhada de quais intenções, consultas e solicitações do usuário pertencem a este tópico. O Atlas depende fortemente dessa descrição para calcular a similaridade de intenção. Por exemplo, em vez de um rótulo curto como "Dúvidas sobre faturamento", escreva: "Trata de consultas relacionadas a faturas de clientes, histórico de cobrança, métodos de pagamento, solicitações de recibos, contestações de cobrança e taxas de renovação de assinatura."
- Escopo (Scope): Um resumo conciso que descreve o que o agente pode e não pode resolver dentro deste domínio. Isso serve como um limite contextual imediato para o modelo quando ele começa a raciocinar.
Redigindo instruções no nível do tópico
As instruções do tópico fornecem as diretrizes comportamentais específicas e as etapas de procedimento que o agente deve seguir quando um tópico estiver ativo. Os administradores devem redigir as instruções em linguagem natural clara e imperativa:
- Orientação sequencial (Sequential Guidance): Descreva a ordem padrão de operações (por exemplo: "1. Solicite ao cliente o ID do pedido (Order ID). 2. Verifique se o ID do pedido corresponde a um registro existente. 3. Recupere o status do envio e resuma o cronograma de entrega.").
- Lógica condicional (Conditional Logic): Defina regras de tratamento para cenários específicos (por exemplo: "Se o status do pedido for 'Entregue', mas o cliente afirmar que não recebeu o pacote, inicie um fluxo de escalonamento para pacote extraviado.").
- Diretrizes de estilo e tom (Style and Tone Directives): Especifique as preferências de comunicação (por exemplo: "Forneça respostas concisas e profissionais. Evite jargões técnicos ao explicar os itens de linha da fatura.").
Os administradores devem buscar um design focado: normalmente de 10 a 15 tópicos distintos por agente, garantindo uma sobreposição semântica mínima entre as descrições de classificação para que o mecanismo não hesite nem classifique incorretamente as solicitações.
Etapa 2: Vinculando e configurando ações (Actions)
As ações são as ferramentas funcionais que um agente invoca para recuperar informações, criar ou atualizar registros e executar lógicas de negócios externas. Sem ações, um agente só pode conversar; com ações, um agente pode realizar trabalho real.
Tipos de ações disponíveis para administradores
Os administradores podem vincular vários tipos de ações a um tópico:
| Tipo de ação | Mecanismo de implementação | Casos de uso típicos |
|---|---|---|
| Flows | Fluxos de inicialização automática (Autolaunched flows) configurados no Flow Builder | Atualização de registros do Salesforce, criação de casos de atendimento, acionamento de solicitações de aprovação, consulta a dados de múltiplos objetos. |
| Classes Apex | Métodos Apex invocáveis anotados com @InvocableMethod | Cálculos complexos, consultas em lote de alto volume, validação criptográfica, integrações com sistemas legados. |
| Modelos de prompt (Prompt Templates) | Modelos de prompt padrão ou personalizados criados no Prompt Builder | Redação de e-mails personalizados, resumo de transcrições de conversas, geração de recomendações personalizadas de produtos. |
| Serviços externos e APIs do MuleSoft | Especificações OpenAPI ou endpoints do MuleSoft Anypoint | Obtenção de dados de remessa em tempo real de sistemas de logística de terceiros, verificação de saldos em gateways de pagamento, reserva de inventário em ERPs. |
Configurando parâmetros e metadados da ação
Ao adicionar uma ação a um tópico, os administradores devem configurar as definições de parâmetros com descrições precisas em linguagem natural:
- Selecionar a ação: Na exibição de detalhes do tópico, clique em Add Action e pesquise pelo Flow, método Apex, modelo de prompt ou serviço externo de destino.
- Definir a descrição da ação: Forneça uma explicação explícita do que a ação realiza e quando ela deve ser chamada. O Atlas lê essa descrição para decidir se a ação é adequada para a etapa atual do seu plano de raciocínio.
- Mapear parâmetros de entrada: Para cada parâmetro de entrada obrigatório (como
caseId,customerIdoubillingZipCode), especifique se o agente deve extrair o valor do contexto da conversa em andamento, solicitá-lo diretamente ao usuário ou passar uma variável de sistema estática. - Definir o tratamento da saída: Configure como o agente processa os valores retornados pela ação. Especifique se a saída deve ser retornada diretamente ao usuário como uma mensagem sintetizada ou repassada ao ciclo de raciocínio como contexto para uma ação subsequente.
- Exigir confirmação (operações com alteração de estado): Para operações sensíveis ou irreversíveis — como processar um pagamento, cancelar um contrato ou excluir um agendamento de serviço —, os administradores podem habilitar requisitos de confirmação, forçando o agente a solicitar explicitamente a verificação do usuário antes de executar a ação.
Etapa 3: Implementando proteções (Guardrails) em múltiplas camadas
Agentes autônomos exigem uma governança robusta para evitar alucinações, vazamento de dados, violações de políticas e modificações não autorizadas de dados. Os administradores implementam proteções em quatro camadas distintas: instruções conversacionais, lógica determinística, permissões de acesso e controles de confiança da plataforma.
1. Proteções conversacionais por meio de instruções em linguagem natural
A primeira linha de defesa é declarar explicitamente restrições negativas nas instruções do tópico. Os administradores devem tratar as instruções como procedimentos operacionais padrão (POPs) fornecidos a um funcionário:
- Proibições explícitas: Articule claramente o que o agente nunca deve fazer (por exemplo: "Nunca prometa um crédito financeiro ou reembolso superior a US$ 50 sem encaminhar para um supervisor.").
- Proteção à privacidade: Instrua o agente sobre como lidar com entradas confidenciais do cliente (por exemplo: "Nunca peça ao cliente o número completo do cartão de crédito, dados da conta bancária ou número do documento de identidade emitido pelo governo. Se o cliente fornecer voluntariamente essas informações, não as repita na conversa.").
- Gatilhos de escalonamento suave: Especifique critérios exatos para quando o agente deve interromper o processamento e transferir o cliente para um atendente humano via Omni-Channel (por exemplo: "Se o usuário mencionar medidas legais, exigir falar com um gerente duas vezes ou usar linguagem abusiva, invoque imediatamente a ação Transfer to Agent.").
2. Proteções de lógica determinística
Embora os LLMs se destaquem na compreensão de nuances conversacionais, cálculos críticos e regras de negócios determinísticas nunca devem ser deixados para estimativas generativas. Os administradores devem aplicar limites estritos transferindo a lógica crítica para código determinístico:
- Usar Flows e Apex para cálculos e validações: Se um desconto precisar seguir faixas estritas com base no valor do tempo de vida do cliente (LTV), encapsule o cálculo dentro de um fluxo de inicialização automática (Autolaunched Flow) ou método Apex. Faça o agente invocar a ação em vez de calcular descontos de forma generativa.
- Validação de saída: Use regras de validação e elementos de decisão de fluxo para rejeitar parâmetros de entrada inválidos antes que os registros sejam confirmados no banco de dados.
3. Proteções de permissão e controle de acesso
Os agentes do Agentforce executam ações dentro de um contexto de execução específico. Os administradores devem impor o princípio do menor privilégio em toda a identidade do agente:
- Usuário e perfil de agente dedicados: Cada agente opera sob um registro de usuário dedicado do Salesforce. Os administradores devem criar um perfil e um conjunto de permissões (Permission Set) especializados e adaptados exclusivamente ao escopo operacional do agente.
- Segurança em nível de objeto e campo (FLS): Garanta que o conjunto de permissões do agente conceda apenas acesso de leitura (
Read) ou edição (Edit) aos objetos padrão e personalizados específicos necessários para os tópicos atribuídos. Nunca conceda a permissãoModify All Dataou permissões administrativas amplas. - Regras de compartilhamento (Sharing Rules): Verifique se o usuário do agente respeita os padrões para toda a organização (OWDs) e as regras de compartilhamento baseadas em funções, garantindo que ele não possa recuperar registros de clientes fora do seu território ou divisão autorizada.
4. Proteções no nível da plataforma: Einstein Trust Layer
O Agentforce opera sobre o Einstein Trust Layer da Salesforce, oferecendo recursos de segurança integrados que exigem configuração administrativa mínima:
- Retenção zero de dados (Zero-Data Retention): O Einstein Trust Layer garante que os modelos de fundação de terceiros não retenham nem utilizem para treinamento os dados de clientes empresariais enviados nos prompts.
- Mascaramento automatizado de dados: Informações de identificação pessoal (PII) — como números de previdência social, endereços de e-mail e números de telefone — são detectadas e mascaradas automaticamente antes que o prompt saia do limite de confiança do Salesforce.
- Defesa contra toxicidade e injeção de prompt: As entradas do usuário e as saídas geradas pelo modelo são verificadas em busca de linguagem tóxica, discurso de ódio e ataques de injeção de prompt que tentem violar as instruções do agente.
- Trilha de auditoria e observabilidade: Cada interação, incluindo os dados de aterramento (grounding) recuperados, o prompt enviado, o raciocínio intermediário do modelo e a resposta final, é registrada nos registros de auditoria do Data Cloud para revisão de conformidade e governança.
Etapa 4: Testes, observabilidade e aprimoramento
Antes de implantar um agente em canais reais de clientes ou internos, os administradores devem validar seus caminhos de raciocínio e aprimorar suas instruções.
Usando o painel de visualização de conversas
O Agentforce Builder inclui um painel de Preview interativo que permite aos administradores simular conversas em tempo real:
- Testar o "caminho feliz" (Happy Path): Insira consultas padrão de usuários para verificar se o agente classifica corretamente a intenção, seleciona o tópico adequado e chama a ação correspondente.
- Inspecionar rastros de raciocínio: Clique no resumo de raciocínio na janela de visualização para revisar o processo de pensamento interno do agente. Inspecione qual tópico foi selecionado, quais instruções influenciaram a resposta e quais parâmetros de entrada foram passados para as ações invocadas.
- Testar casos extremos e proteções: Envie intencionalmente consultas fora do escopo, solicitações ambíguas e prompts adversários (como pedir ao agente que ignore suas instruções ou revele configurações internas do sistema). Confirme se o agente permanece dentro do escopo, cita adequadamente as políticas da empresa ou escala para um representante humano.
Implantação e monitoramento em produção
Concluídas a configuração e os testes em sandbox:
- Ativação de canais: Ative o agente e atribua-o aos canais de implantação, como Salesforce Service Cloud Messaging, sites do Experience Cloud, aplicativos móveis ou espaços de trabalho internos do Slack.
- Agentforce Command Center: Monitore métricas de desempenho em tempo real, incluindo taxas de desvio (autoatendimento), distribuição de tópicos, taxas de sucesso de ações e frequências de escalonamento.
- Ajuste contínuo de prompts: Revise os logs de sessão em que o agente escalou prematuramente ou classificou intenções incorretamente. Refine as descrições de classificação de tópicos e adicione instruções negativas esclarecedoras para eliminar ambiguidades ao longo do tempo.
Ao definir sistematicamente tópicos granulares, capacitá-los com ações invocáveis robustas e protegê-los com barreiras de proteção em múltiplas camadas, os administradores do Salesforce transformam modelos generativos em colegas de trabalho digitais autônomos e confiáveis, capazes de impulsionar a eficiência corporativa enquanto salvaguardam os padrões da empresa.